No sábado, 1º de novembro, fui assistir a Órfão, monólogo autoral de Paulo Lourenço dirigido por Artur Rogério apresentado na programação da 7ª Mostra de Monólogos – Belo Horizonte, evento que se dedica a selecionar jovens artistas fomentando a criação e pesquisa de trabalhos solos. Inspirado no poema Olhando no Espelho, de Abdias do Nascimento, segundo a sinopse: a cena mergulha em delírios e lembranças de Ludovick, um personagem que atravessa silêncios, vozes, realidade e devaneio. O público é convidado a acompanhar um fragmento de sua existência como se observasse, em silêncio, uma película de cinema mudo que pulsa entre o real e o imaginário.
Às vésperas de assistir ao espetáculo, porém, o Brasil foi tomado pela brutalidade: a operação policial mais letal da história. Foi impossível não relacionar este contexto a Órfão. Na terça-feira, 29, em tempo real assisti pela TV e pelas redes sociais, o massacre promovido pelo Estado do Rio de Janeiro que vitimou uma centena de pessoas negras das favelas da Penha e Alemão. Corpos recolhidos pela comunidade da Pena estirados em praça pública, no sentido mais literal e brutal. Uma imagem difícil de esquecer.
As atualizações estarrecedoras me fizeram lembrar de quando, em setembro de 2019, entrevistei o poeta Ricardo Aleixo durante uma manifestação pelas vidas dos erês em Belo Horizonte. “Eu escrevo em legítima defesa” ele declarou enquanto a multidão com velas, balões amarelos e pretos em luto e em luta pela vida de Agatha Félix, criança de 8 anos vítima de bala perdida no Rio de Janeiro. “Não estão matando as juventudes, estão matando também as infâncias”, constataram com tristeza, as pessoas presentes. O que vemos é a ausência do Estado no processo de políticas públicas que protejam as infâncias e juventudes negras ao invés de exterminá-las sob o discurso de que bandido bom é bandido morto.
Pergunto-me se todas nós, pessoas negras conscientes, fazemos o que fazemos e como fazemos, em legítima defesa? E se, até então, não fazemos, deveríamos fazer? Eu penso sobre isso desde 2019, e tento transpor e transbordar minha atuação na comunicação neste lugar de reflexão e como parte integrante e indissociável do movimento negro.
No poema “Olhando no Espelho”, inspiração de Paulo Lourenço, Abdias dedica aos netos uma reflexão profunda sobre a infância plena que violência racista rouba das crianças negras. Na medida em que o dia de assistir ao espetáculo Órfão foi chegando, foi inevitável pensar sobre a intercessão destes tantos temas: diversas orfandades de direitos que as crianças negras atravessam na vida, dos racismos sofridos nas escolas desde tão pequenas, nas crianças negras tomando os primeiros enquadros pela polícia, as que são assassinadas como Ágatha. Crianças vendo a violência em praça pública. Crianças negras que são condicionadas a sonhar menor, uma imposição do racismo.
Abdias escreve na tentativa de, poeticamente, preparar os netos para o racismo porvir, que nos atravessa cedo. Ele mira na utopia de vida plena para as crianças negras e nas possibilidades de resistência e reconstrução. Ele não é desesperançoso, Abdias inventou o próprio futuro e dedicou-se à defesa dos direitos das pessoas negras.
De algum modo, o que vejo é que o menino Paulo Lourenço também está neste palco se refazendo e retomando seu caminho na arte que foi desviado pela falta de acesso e oportunidade. A carreira de Paulo Lourenço já mostra seu profundo processo de pesquisa e sua presença marcante no palco. Assistente Social de formação, Paulo tem alma de artista desde de sempre. Na infância criava o tema de aniversário dos primos e juntava as crianças da rua para apresentações teatrais. O menino ligado às artes cresceu e deu lugar à vida concreta das contas a pagar. Agora, deixa o corpo fluir por cursos livres de teatro que o preparam para a carreira de ator até então adormecida. Paulo leva ao palco uma cena de utopias e devaneios, subversão e poesia trazendo à tona um episódio da vida de Abdias e que aos 14 anos negou uma proposta de emprego de guardador de livros porque no dia de começar seria transportado em uma carroça juntos às galinhas. Uma cena complexa que não permite distrações, Ludovick é um adulto que se apresenta vulnerável e melancólico com reflexões sobre a ausência do pai e pela espera de uma mulher que validaria seus livros. Na narrativa não linear, a orfandade tratada por Paulo em cena não é de um pai e uma mãe, mas sobre a negação de direitos sociais para uma infância plena, reflexões inspiradas no poema de Abdias.
Vida longa ao Paulo arteiro, artista desde menino que junto ao seu olhar de assistente social é capaz de “enforcar os usurpadores de sua infância” nas cenas e nos palcos de BH e também do mundo todo.
Poema de Abdias do Nascimento
Olhando no Espelho
(Para meus netos Samora, Alan e Henrique Alberto)
Ao espelho te vejo negrinho
te reconheço garoto negro
vivemos a mesma infância
a melancolia partilhada do teu profundo olhar
era a senha e a contra-senha
identificando nosso destino
confraria dos humilhados
a povoar a terna lembrança
esta minha evocação de Franca
Éramos um só olhar
nos papagaios empinados
ao sopro fresco do entardecer
Negrinho garota negra
vivemos a mesma infância
nos cafezais brincamos
nas jabuticabeiras trepamos
chupamos a mesma manga e melancia
Éramos uma única ansiedade
à subida multicor dos balões
pejados de nossos sonhos e ilusões
Negrinho meu irmão
como te chamavas tu?
Felisbino Sebastião Geraldo?
Serias menina: Rosa
Negra Alice Tarsila?
Ou te chamarias Aguinaldo?
Lembro nosso emprego:
lavar vidros
entregar remédios
fazer limonada purgativa
limpar as sujeiras de uma farmácia
E aquele grito em nosso ouvido
“– Acorda preguiçoso”? era o patrão
outra vez cochilaste reclinado ao chão
Assustados teus olhos dançaram
desgovernados pelas lágrimas
saltaste inutilmente lépido
Um dedo irrevogável
te apontou a porta do desemprego
assim regressaste
à casa que já não tinhas
na noite anterior morrera
tua pobre mãe que a mantinha
Negrinha garoto negro
sei que somos uma
prosseguimos os mesmos
ao abandono de nossa orfandade
Assim juntos e sem nome
devemos continuar nosso sonho
nosso trabalho
reinventando as nossas letras
recompondo nossos nomes próprios
tecendo os laços firmes
nos quais
ao riso alegre do novo dia
enforcaremos os usurpadores de nossa infância
Para a infância negra
construiremos um mundo diferente
nutrido ao axé de Exu
ao amor infinito de Oxum
à compaixão de Obatalá
à espada justiceira de Ogum
Nesse mundo não haverá
trombadinhas
pivetes
pixotes
e capitães-de-areia
Búfalo, 1980
(In: Axés do sangue e da esperança, p. 50)





