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Clube do Livro Página Preta: espaço para sonhar e ser múltiplo

Conheça o clube do livro botequeiro que reúne jovens negros em bares pela cidade

As mãos negras das cerca de dez pessoas em torno da mesa seguram e folheiam livros sob a luz amarela de um simpático quintalzinho contornado por muitas plantas, no bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte. Os jovens estiveram ali no último sábado de julho para discutir o livro Oração para Desaparecer, de Socorro Acioli. Com a leitura combinada no encontro anterior, as reflexões e discussões sobre a obra foram ora meméticas e imaginativas, ora profundas e questionadoras sobre raça e gênero. A conversa fluida e amistosa aconteceu enquanto petiscavam o clássico pastel de angu e bebericavam drinks e cervejas no espaço escolhido para o encontro, o restaurante Mandak Nega, do chef Stan Albano. Foi assim, na sexta edição, que me juntei à mesa e conheci o Clube do Livro de perto. 

O projeto propõe desde fevereiro um encontro mensal de vivência da leitura e de boteco para pessoas negras. Idealizado por Iza Poesia, Thainá Rocha e Matheus Lima, é definido por eles como “um lugar seguro para sonhar e ser múltiplo”. Com edições itinerantes, em cada encontro, um novo livro vira papo para uma mesa de bar. Além da narrativa de Socorro Acioli, as de Jeferson Tenório e Conceição Evaristo, Patrick Torres, bem como a filosofia de bell hooks, Krenak, Cida Bento e Fanon já dividiram espaço na mesa com a culinária afromineira.

A criação da comunidade de leitura voltada para pessoas negras em Belo Horizonte é inspirada na experiência do Sem Nome Clube do Livro, exclusivo para mulheres negras, em São Paulo. Após ver uma postagem nas redes sociais de uma amiga, Iza ficou encantada com mulheres negras reunidas em uma cafeteria para vivenciar leituras. Convidou Matheus Lima, também estudante de Geografia, e Thainá Rocha, formada em Letras com habilitação em Estudos Linguísticos — ambos da mesma instituição — para idealizarem os encontros em BH. O medo de não dar certo foi rapidamente tomado pelo poder de uma boa ideia ser esparramada pelo boca a boca — um amigo que fala para o outro e que fala para o outro. “Porque, dentro do ambiente acadêmico, nossas narrativas e a nossa fala são muito sufocadas. Comecei a sentir que estava parando de ler”, relembra Iza sobre o convite feito aos amigos. 

Thainá complementa que logo perceberam que mais pessoas sentiam a ausência de um espaço seguro para trocas: “Nós somos constantemente silenciados em todos os âmbitos da sociedade, principalmente na produção do conhecimento. Nossos saberes e nossos conhecimentos são reprimidos e oprimidos, então pensamos neste espaço como um espaço seguro para que pessoas negras exponham as suas ideias”. 

LiteraRua: encruzilhada da literatura com bares da cidade

No primeiro encontro, em fevereiro, Tudo Sobre o Amor, de bell hooks, foi degustado entre um acarajé e outro no Território Kitutu de Aquilombamento, restaurante sob o comando mestra Kelma Zenaide, localizado no Baixo Centro. Sete sorrisos negros, agora registrados no perfil nas redes sociais da comunidade literária, aliaram-se ao desejo da escritora bell hooks de ver temas como feminismo discutidos em praça pública e não só contidos dentro de uma universidade. Após o primeiro encontro, os amigos entenderam que o diálogo presencial sobre as leituras não caberia em local silencioso e em locais caros, como as apelidadas “cafeterias superfaturadas”. O formato foi se consolidando de forma orgânica com a percepção da importância de unir literatura com a efervescência da rua como um processo de retomada da circulação e do direito à cidade tão afetado pela pandemia. Matheus explica a ideia da itinerância por bares. “Primeiro porque adoramos cerveja. A gente mora em Belo Horizonte, a capital dos bares no Brasil, faz parte da nossa cultura do dia a dia. E o interessante de ser em bar é que mostra que a literatura também é divertida”. 

O pensamento contracolonial move o coletivo para estabelecer o encontro da literatura com a cidade, intitulado por eles como LiteraRua, em que não é preciso falar baixo e reprimir emoções. Para eles, é preciso ir contra a linha de raciocínio que exclui determinadas pessoas de determinados lugares, como na academia. “A academia ainda é bastante excludente com pessoas negras. A gente, constantemente, sente bastante desconforto, sente vergonha de falar, de levantar a mão, de ter dúvidas, vergonha de expor as opiniões”, reflete Thainá. Bares e espaços gastronômicos, que prezam pela cultura negra são escolhidos para receber as sofisticadas e animadas elaborações sobre obras teóricas e literárias. Além do Mandak Nega e do Território Kitutu de Aquilombamento, o Mojubá Bar, Casa Afrodiaspórica no bairro Santa Tereza, liderada por Janine Gonçalves e Thalita Mariana, também já recebeu o encontro. “Quando a gente pensa nos espaços em que a gente quer discutir literatura e discutir livros, pensar num bar é um lugar também que a gente se sente confortável, sabe? A gente se sente à vontade. Não tem aquelas amarras de falar baixo, de tomar cuidado com o que fala”, completa. 

O conceito de comunidade, proposto por bell hooks, como um espaço de amor, resistência e transformação, um território de cuidado, partilha, em que se valoriza o diálogo honesto, a vulnerabilidade e a conexão com o contexto real dos indivíduos, inspirou o coletivo, que vem se consolidando no calendário da cidade. Expandindo suas conexões com comerciantes locais, entre leitores negros e também aqueles que desejam retomar o hábito, o grupo forma um aquilombamento cuja premissa é ter uma coordenação, mas com decisões pautadas na horizontalidade entre os membros. 

Priorizando autores negros e indígenas, as leituras são definidas após cada participante sugerir um título, que depois é sorteado. Matheus reforça que as questões raciais surgem, mas que outras questões cotidianas da vida também são assunto. “Quando um grupo de pessoas negras se reúne, geralmente esperam que o ponto central vai ser a discussão do racismo e as pessoas negras vão falar só sobre isso. A gente também traz livros mais leves e a gente também pode falar de outras coisas além dessas questões”.

Próximo encontro

O clube do livro Página Preta teve dez edições, sendo que as últimas duas, aconteceram em novembro. No encontro do dia 8, um dos mais marcantes, O cozer das pedras, o roer dos ossos, econtou com a presença do autor nordestino Patrick Torres, que nesta obra de estreia, resgata a literatura brasileira regionalista. De modo geral, os encontros acontecem no último sábado ou domingo de cada mês. O próximo irá tratar do livro A terra dá, a terra quer, de Nego Bispo, 29 de novembro; o lugar e o horário ainda estão em definição. Enquanto isso, você já pode começar a leitura da obra e acompanhar mais informações sobre o Clube do Livro Página Preta em: https://www.instagram.com/clube_paginapreta/.

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